A "italianinha" adorava viajar. De preferência de
carro, apesar de achar o avião muito chique, tinha um certo receio.
Só mesmo quando a viagem era muito longa ou não desse para
aproveitar o fim-de-semana se fosse por terra.
As cidades mais próximas, num raio de 100, 150km, foram palcos "sem
saber" de loucuras e situações por vezes complicadas. Nestes
lugares eu representei - e que Deus me perdoe - o Papai Noel, o
Fantasma, o Capitão Marvel, o Capitão América, ora o Mandrake, ora
o Lotar, Napoleão Bonaparte, Imperador Dom Pedro, Zorro e até o
Silver para ela cavalgar.
Fiz ainda papel de funcionário do hotel que vem trazer o jantar e a hospede está tomando banho, encanador que vem arrumar a pia mas a dona da casa não pode parar de lavar a louça, enquanto ele, deitado no chão fica vendo que a dona está sem calcinha, ai ela conta uma história que o marido está viajando pelo exterior já tem quase seis meses, que ela não sabe nem mais como é que é, essas coisas. O encanador não agüenta e parte pra cima da dona e . . .
Esta história era muito parecida com a do cara
que vem arrumar o varal de roupa, a porta do armário que estragou
ou qualquer outro serviço doméstico. Bastava pedir pra eu arrumar
alguma coisa na casa dela, sentindo-se na obrigação de "incentivar"
meus préstimos, armava logo uma encenação porno-erótica-sensual, ou
sei lá como é que se pode chamar isso. O que acabava acontecendo
era que, pela grande atuação que ela desempenhava, eu acabava me
empolgando e o serviço ficava pela metade.
Mas ela não reclamava, na semana seguinte lá estava ela "chamando"
de novo o "zelador" para fazer o inacabado e novamente era
incentivado, agora sim, concluindo também o que havia
iniciado.
Acho até que ela sentia um certo reconhecimento quando isso acontecia, sinal que sua interpretação era muito convincente. Só que isso foi tornando-se mais freqüente e perigoso, iniciando as brigas porque eu comecei a negar algumas encenações ou apenas mudar o script, coisa que ela não admitia.
O lugar para onde fui com minhas amigas estava
hiper lotado, com gente na calçada. Porque lá dentro, mesmo na rua
perto do bar improvisado, já não dava nem pra se mexer.
Diante daquela situação, fomos caminhando até uma pastelaria, que
já tinha sido um drama estacionar, o que só consegui fazer na rua
transversal.
A pastelaria também estava bem concorrida, mas como era todo ao ar
livre, ocupando parte da antiga rua a beira mar, hoje um
estacionamento ou lugar que os barzinhos colocam as mesas para seus
fregueses; sempre deu pra ficar e até arranjar uma mesa só pra
nós.
Pedimos cerveja e congnac, porque todo mundo tinha comido camarão e
frios na tábua lá no bar onde estavamos, ficando sem aquela fome
dos outros dias.
Quem estava lá e assim que me viu levantou-se e
foi embora, imediatamente? A Sandra. E justamente com o carinha que
eu usei como "motivo" para o fim do romance. Sinal que a minha
atitude, mesmo atirando no que não vi, acabou acertando no que
"fingi" ver. Fácil de entender.
- Como é que você vai comprar camarão amanhã, não é feriado?
Perguntou minha amiga.
- Não querida, amanhã é segunda-feira, feriado só na terça.
Respondi.
- Queridaaaa???! Que história é essa, retrucou demonstrando
surpresa.
- Bem - meio sem jeito pelo furo - é que sou meio ruim de guardar
nome, quando me apresentaram você pensei cá com meus botões: "que
querida", e ai ficou.
- Não combina comigo não. Acho melhor você mudar isso ai. Disse
entre um sorriso e um olhar penetrante, como se estivesse
ordenando.
- Que tal "Polaca"? Perguntei olhando para as demais na esperança
que elas aprovassem, me dando uma força.
Mas foi ela que, antes que ocorresse qualquer manifestação das
amigas, informou aos presentes que era assim mesmo que a chamavam
na Faculdade. Ela não achava original, mas aceitava bem o apelido,
já que era mesmo descendente lá daqueles lados.
Lembrei-me então da minha viagem a Europa, um ano e meio antes, passando a narra-la, conseguindo unanime atenção. Só exclui minha companhia de viagem, que eu não podia entregar o ouro assim ou, no dia seguinte, teria que explicar muito mais que o necessário.
Eu havia resolvido que naquelas férias de julho
não ia ficar passando frio no sul do país. Naquela oportunidade,
entrei numa galeria e vi uma agência de viagem com as vitrines
cheias de cartazes chamando para o verão europeu. Era abril, e o
outono já apresentava uma prévia de como seria o inverno aquele
ano. Entrei e fui atendido por uma graça de menina, muito gentil e
atenciosa, parecendo conhecer pessoalmente todos os lugares que
descrevia.
Apresentou-me um "pacote" que achei muito interessante, pois ia
unir a fuga do frio com uma das minhas paixões mais recentes. A
Fórmula Um.
O pacote era para ver as corridas em três países,
vinte e sete dias de estadia com bastante tempo livre para conhecer
outros lugares fora do roteiro proposto.
- Mas se eu quiser abandonar o grupo lá e seguir outros rumos, como
faz?
- Basta você ir e voltar no vôo do grupo, que é "charter", lá pode
andar onde quiser, só tem que programar antes porque precisa visto
em alguns lugares, animou-me a menina simpática.
Naquela época a italianinha morava no meu coração
de babydoll, daqueles bem curtinhos, e foi nela que eu pensei para
levar comigo.
Fiz as reservas e ansioso esperei o fim de semana para contar a
novidade, sabendo que em julho ela não teria nenhum compromisso,
era época de férias na Faculdade.
Quando contei ela quase me sufocou, abraçando-me e beijando como
reconhecimento por esta "prova de amor" que eu estava dando.
Afinal, bancar uma viagem destas para a Europa era coisa que ela
sabia não ser barato.
Uma coleguinha, que obviamente estava morta de inveja, ainda tentou minimizar dizendo que ela devia trocar a viagem por uma moto, sonho que ela alimentava mas que o pai jamais iria patrocinar. Dinheiro para estudar ela podia pedir quanto ele tivesse, mas pra "bobagem", que fosse trabalhar para possuir.
Imediatamente fui em seu socorro, para desespero
da colega, na verdade uma prima que morava ali também, roendo as
unhas em visível sinal de ódio.
- No próximo Natal a moto também vai aparecer.
Ela ficou tão excitada com tudo isso ao mesmo tempo, não sei se
esqueceu que não estávamos sozinhos ou fez de propósito pra prima
ficar escandalizada, imediatamente jogou-se contra mim e começou a
despir-se, beijando-me freneticamente enquanto gritava
adjetivos.
- Gostoso. Lindo. Amado. Tesão. Transando comigo no tapete da sala
na presença estática da prima, que depois do susto, retirou-se
xingando.
- Puta. Vadia. Vaca. Viado. Corno. Vai fazer isso na cara da tua
mãe.
O embarque para a Europa foi precedido de grande excitação e planos mirabolantes. Durante os dois meses seguintes ao anuncio da viagem, a italianinha estudou mapas, leu artigos, comprou revistas especializadas em turismo e assistiu em vídeo qualquer filme ou documentário que mostrasse os países do velho continente.
Com uma colega de faculdade aprimorou seu
italiano, língua materna que falava na infância, e com um outro
aprendeu as frases clássicas do inglês. Estava pronta para a
viagem.
Tinha feito um roteiro das cidades que mais lhe interessava
conhecer, visitando quase diariamente as agências de viagem da
cidade, reduzindo significativamente o tempo para estudar as
matérias da faculdade, o que lhe custou um semestre de direito
II.
A sacanagem começou já no avião, por volta das duas da madrugada, quando foi informada pela comissária de bordo que estávamos sobrevoando o Atlântico, anúncio este premeditadamente combinado. Sem que eu percebesse, pois já havia cochilado algumas vezes, ficou inteiramente nua sob a coberta e adestrando minha mão, fez com que ela percorresse todo o seu corpo, que estremecia a cada toque mais ousado. Segurando ruídos, colou sua boca na minha orelha e respirava ofegante, criando um clima de intensa excitação misturado com o receio de sermos flagrados pelos comissários ou um passageiro que se deslocasse para o toalete.
O vôo não estava lotado, muito pelo contrário,
pois houve uma pane no avião que fora fretado, substituído por
este, muito maior, o que acarretou inúmeros lugares vagos.
Ela conhecia o filme da Sylvia Cristel e não se conformou enquanto
não conseguiu reproduzi-lo, com detalhes que eu nem havia guardado
na minha fraca memória. Quando chegamos a Madri, ela dormia com um
indisfarçavel sorriso nos lábios, misto de satisfação e
realização.
Continua em breve, no Capítulo IV


